segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Agora Inês é morta!


"Tu só, tu, puro amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga, 

Deste causa à molesta morte sua, 
Como se fora pérfida inimiga. 
Se dizem, fero Amor, que a sede tua 
Nem com lágrimas tristes se mitiga, 
É porque queres, áspero e tirano, 
Tuas aras banhar em sangue humano."



Essa linda evocação ao amor foi escrita há mais de 500 anos, pelo português Luis Vaz de Camões, em sua obra, "Os Lusíadas". O amor aqui é visto como uma entidade, por isso é grafado com letra maiúscula, característica própria do movimento renascentista e da cultura greco-latina. Tal criação foi uma tentativa do autor de escrever uma epopeia portuguesa, inspirada nos grandes heróis da Antiguidade, como Ulisses e Aquiles, narrados na "Odisseia" e "Ilíada", respectivamente. Cabia a Camões, agora, versar sobre o grande herói de seu tempo, não um, mas todo o povo português.

Composta 10 cantos ,distribuídos em 1102 estrofes, organizadas em oitavas decassílabas e esquema de rimas fixo, que ficou conhecido como a oitava rima camoniana. A estrutura da obra divide-se nos padrões da epopeia tradicional grega: proposição, invocação, dedicatória e narração. Na sua proposição, Camões sugere ser essa a grande epopeia da historia, cessando as dos sábios gregos e troianos. Em seguida, invoca às Tágides, ninfas do Tejo, pedindo-lhes inspiração. Dedica sua narrativa à Dom Sebastião, rei de Portugal desaparecido em batalha e enfim inicia a história de seu povo, in media res. 

A narrativa usa como plano de fundo a viagem de Vasco da Gama às Índias, e inicia-se já com as naus em alto mar. Portugal, àquela época, era uma das nações pioneiras nas navegações e havia descoberto esse caminho para compra de produtos. Embora nossos patrícios fossem um povo católico, Camões utiliza-se do artifício da presença dos deuses gregos para ilustrar a sua história e caracterizá-la como uma verdadeira epopeia. Em seu caminho, Vasco passa por inúmeras dificuldades, como a cilada armada pelo rei de Mombaça, as artimanhas de Baco para destruir a viagem, a profecia do Velho do Restelo, a passagem pelo Cabo das Tormentas, aqui metaforizado na figura do Gigante Adamastor, dentre outros. 

Durante a viagem, Vasco é convidado a aportar em Melinde, a ali contar a historia de seu povo ao rei. Aí começam a desfilar as figuras da sociedade lusitana, seus costumes, suas histórias, suas tradições. É nessa parte que aparece o episódio de "Inês de Castro", cujo trecho abre esse texto. Considerado o momento lírico da obra, esse episódio narra a história de Inês, aquela que depois de morta, foi rainha. Aquela que morreu apenas porque amava. D. Fernando, príncipe português, era casado com a ama de Inês e acabou apaixonando-se pela serva. Após ficar viúvo, resolveu render-se ao amor e uniu-se a Inês. O rei, D. Afonso, resolve, então, acabar com a vida da moça, que ainda tenta salvar-se , clamando pelos seus filhos. O rei se compadece, mas o povo resolve traçar o destino de Inês com a pena da morte. Ao tornar-se rei, D. Fernando ordena que a sua amante tenha um funeral digno da nobreza. Diz uma lenda que ele a colocou, ricamente vestida, sentada no trono e coroou-a rainha. "Inês é morta!", muitos dizem sem nem saber a origem desse tão antigo ditado. Tarde demais! Não havia mais tempo de reaver e reviver esse amor. 

A narrativa segue com outras historias do povo português, suas conquistas, suas batalhas, seu cruel predestinado berrado pelo velho, considerado louco por muitos. Dizem que Camões não realizou a epopeia perfeita, pois tem um tom crítico e saudosista em seu modo de narrar, que sugerem a glória e futura decadência de seu herói, seu povo. Reza a lenda que, num acidente marítimo, o autor teve que escolher entre salvar a vida de sua amada e os seus manuscritos. Salvou o livro. 

Ainda bem! Caso assim não fosse, hoje não teríamos essa história para contar. Com certeza, nos dias de hoje, nenhum autor teria tempo cabível, nem inspiração, nem jeito de fazer uma obra como essa. Ela não cabe mais em nosso tempo. Pelo menos não para ser escrita. Para ser lida, apenas por alguns corajosos que se atrevem. Infelizmente, nos dias de hoje, ensinar Camões, Literatura, Arte, é uma forma de oferecer pérolas aos porcos! Poucos se interessam, poucos alcançam a grandeza dessa e de outras grandes histórias. A sociedade infelizmente perdeu-se. Tornou-se rasa, apagou-se na passagem do tempo e já não valoriza mais o que é bom e o que é belo. Teve a sua capacidade reflexiva, criativa e admiradora enterrada junto com Inês. Tomara que um dia alguém (que ainda ame) a retire do sepulcro para fazê-la rainha.



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