Quando viu, estava de frente àqueles olhos, azuis celeste, faróis de moto, olhar de festa. Não soube como reagir a tanta beleza. Fixou seus olhos naqueles, que o levaram para dentro, cada vez mais dentro, cada vez mais dentro... Levantou-se do chão, recolheu seus livros e desculpou-se com a moça em quem tropeçara. A dona daquele olhar apenas o sorriu, disse que não tinha de quê e entrou na biblioteca. E ele ficou ali, olhando a mulher com os olhos de Osíris se distanciar cada vez mais de si, e se internalizar cada vez mais em si.
Eduardo jamais sentira sensação semelhante. Tinha todas as mulheres que queria, mas não tinha nenhuma. Não conseguia prender-se a nenhum amor, sempre jogando-se na vida, sorvendo a liberdade a qual estava acostumado, sem firmar em um porto. Mas aqueles olhos! Só conseguia pensar naquele anil que o prendera,no "choque entre o azul e o cacho de acácias", cantado por Caetano, naquela isca que dançava sob seus olhos, naqueles passos cadenciados para longe de seu corpo, mas cada vez mais para dentro de sua alma.
Por alguns instantes ficou parado ali. O peito apertado e a sensação de borboletas no estômago, de que tanto ouvira em mensagens, telefonemas, declarações. E por um momento, o senhor de si e da razão, do domínio de seu mundo e da sua vida, que sempre dizia não, que sempre sabia o que fazer, ficou anestesiado por aquela moça, que esbarrara nele, derrubara seus livros no chão, mas nem sequer demonstrava um vestígio da veneração que provocara nas outras mulheres.
Entrou na biblioteca. Realmente precisava estudar. Mas nunca o fizera ali. Sempre levava seus afazeres para casa. E naquele dia, precisava mudar radicalmente seu jeito de ser, porque a sua vida estava condenada a mudar para sempre depois daquele acidente. Olhou as mesas e cadeiras, observou cada um que ali estava e, ao fundo do salão, com fones no ouvido e um livro enorme, viu a moça. Propositalmente, escolheu a cadeira vazia ao lado dela para sentar-se. Abriu um de seus muitos livros de Direito, e ficou ali, com o livro e a mente abertas. Tentava um aproximação, mas a moça estava absorta em uma história que ele nunca lera, num livro de capa grossa azul, com umas folhas já amareladas. Trazia ao lado uma caderneta, na qual fazia recorrentes anotações.
Eduardo não se deu conta de quanto tempo passou desde que entrou na biblioteca, mas quando deu por si, não tinha saído nem mesmo da segunda página. Começou a ler então aquelas leis todas, concentrou-se ali, sem notar que a moça levantara e fora embora sem fazer barulho ou mostrar vulto. A única coisa que percebeu foi o perfume da moça no ar e a ausência que seu corpo deixara na cadeira ao lado. A leitura estava adiantada, quando resolveu que iria embora. Ao recolher seu material, viu uma pequena folha cerrada, que não fazia parte de suas coisas. Quando abriu, havia um número de telefone apenas.
Ligou imediatamente, sem mesmo saber quem atenderia. Foi quando inebriou-se mais uma vez! Aquela então era a voz da sua deusa, o canto de uma sereia, a sinfonia mais perfeita. Conversaram por alguns minutos e ela disse que sempre o observara, mas que não deixava transparecer, pois não queria ser apenas mais uma. Eduardo percebeu, então, que ela era única. Pegou sua moto e correu ao encontro de Milena.
- Nunca imaginei que logo você, o cara mais folgado da faculdade, fosse ler meu bilhete e me ligar!
- Por que não ligaria?
- Porque sempre tem tantas meninas a sua volta, que achei que nunca fosse olhar pra mim, a maluquinha de História, sempre com fones no ouvido e livros na mão. Achei que não era o seu tipo.
- Vi seu olhar de farol de moto, azul celeste. Me ganhou no ato! Uma carona pra Lua, tá afim?
Milena sorriu e o encantamento de Eduardo por ela só fez aumentar Lembrou-se de uma música de um cantor homônimo ao seu amante que ouvira mais cedo. A melodia tomou conta da moça e dominou seu corpo. Subiu na moto e saíram sem rumo, noite adentro, botecos abrindo e os dois rindo, brindando cerveja, como se fosse champagne. E assim viveram um tempo, arrastados por estradas, desertos, curtindo a vida e aquele amor com total entrega e felicidade que nunca imaginaram sentir.
Quando completara seis meses de relacionamento, Eduardo já era outro: torna-se mais responsável com os estudos, não perdia mais aulas, não saía mais à noite com os amigos, não tinha mais inúmeras mulheres na lista de contatos. Estava feliz! Não se permitira essa felicidade nunca em sua vida. O rapaz era como um borboleta, que há muito se permitiu aprisionar na condição de lagarta. Era livre das amarras sociais que o prendiam, não tinha mais necessidade de provar nada a ninguém. Sentia-se feliz, como se seus dias fossem todos de férias, debaixo de palmeiras no mar.
Preparou, então, uma surpresa para Milena. Levou-a para jantar. Luz de velas! Ao fundo, uma música! Convidou-a para dançar. Outros casais ocupavam a pista de dança. Foi quando um escorpião mordeu o coração de Eduardo. Pensou ter visto um cara olhar para Milena. Não podia imaginar sequer perder a moça de seus sonhos, seus olhos de anil, sua companhia de aventuras, de madrugadas intensas. A mesma fração de segundos que levou para apaixonar-se, levou também para enlouquecer. Pintou ciúme na mesa do bar. Milena sentiu a inquietude do namorado e brincou:
Preparou, então, uma surpresa para Milena. Levou-a para jantar. Luz de velas! Ao fundo, uma música! Convidou-a para dançar. Outros casais ocupavam a pista de dança. Foi quando um escorpião mordeu o coração de Eduardo. Pensou ter visto um cara olhar para Milena. Não podia imaginar sequer perder a moça de seus sonhos, seus olhos de anil, sua companhia de aventuras, de madrugadas intensas. A mesma fração de segundos que levou para apaixonar-se, levou também para enlouquecer. Pintou ciúme na mesa do bar. Milena sentiu a inquietude do namorado e brincou:
- Fica frio, meu bem, é melhor relaxar!
Soltou uma gargalhada, pois achava que Eduardo nunca teria atitude tão infantil. Achava aquilo tudo uma bobagem. Mas a gargalhada soou como uma estaca no coração do rapaz. Acreditou que ela ironizava seus sentimentos. Suava frio, não sabia controlar o que sentia. Via o azul dos olhos de Milena em sua mente, ouvia aquela gargalhada, via a moça rodar na pista, sufocava, se irritava, não conseguia se conter. Puxou a moça pelo braço, que sem entender, o acompanhava assustada. Colocou-a na moto e saiu correndo.
Voava pela rua, costurando entre os carros, numa velocidade frenética. Milena gritava, pedia que parasse, batia em suas costas, mas o monstro do ciúme e o som do trânsito não permitiam que ele a ouvisse. Apenas corria! Passaram por avenidas e becos, bairros nobres e favelas, até que, em cima de uma ponte, ele fez uma manobra e a moça voou. Eduardo manteve-se firme na direção! Milena agonizava sobre contêineres de um porto desativado.
Eduardo disparou a sua moto. Estava destinado a passar a vida dormindo a viajar entre lençóis, vendo o corpo de Milena dançar no meio do jantar, num ballet sedutor, e a imagem daquela dança ia e vinha, ora no restaurante, ora na ponte. Já não distinguia sonho e realidade. Aventurava-se pela cidade, a procurar por todos lugares. Todos os faróis lembravam os olhos de Milena. Não vivia mais os dias de descanso, que agora verteram-se em agonia, em quase escravidão, em ser lagarta de novo, aprisionado na falsa liberdade, pois ninguém soubera como Milena despencara ponte abaixo.
Voltou à ponte. Ficou ali alguns instantes. Não sabia precisar quanto. Perdera a noção de tempo, espaço, direção. Perdera a sua bússola, a moça que lhe ensinou tudo, inclusive a sofrer. A moça que lhe permitiu sentir, que fora seu céu e seu inferno, seu melhor e seu pior. Foi quando ouviu novamente a gargalhada da bruxa e a voz da deusa, soprando em seu ouvido. Tudo ficou azul. Faróis não paravam de passar e iluminar aquela cena insana. Viu o mar, viu a palmeira, viu Milena ir e vir na sua dança. Ouviu a sua voz "fica frio, meu bem, é melhor relaxar!" E assim o fez! Estava novamente livre e ao lado de sua amada. Vivia novamente seus dias de férias.
Palmeira no mar!
Voltou à ponte. Ficou ali alguns instantes. Não sabia precisar quanto. Perdera a noção de tempo, espaço, direção. Perdera a sua bússola, a moça que lhe ensinou tudo, inclusive a sofrer. A moça que lhe permitiu sentir, que fora seu céu e seu inferno, seu melhor e seu pior. Foi quando ouviu novamente a gargalhada da bruxa e a voz da deusa, soprando em seu ouvido. Tudo ficou azul. Faróis não paravam de passar e iluminar aquela cena insana. Viu o mar, viu a palmeira, viu Milena ir e vir na sua dança. Ouviu a sua voz "fica frio, meu bem, é melhor relaxar!" E assim o fez! Estava novamente livre e ao lado de sua amada. Vivia novamente seus dias de férias.
Palmeira no mar!
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