terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Chico Buarque, O Professor




Mexendo na minha gaveta de discos, achei um que se intitula "Chico Buarque O sambista" e traz uma seleção de alguns dos bons sambas desse compositor. Fui procurar então, os outros discos, lançados em comemoração aos 50 anos de natalidade do dono dos olhos de mar mais lindos que já vi (amor platônico é um caso seríssimo!). Achei os títulos de trovador, cronista, político, malandro e amante. Não tenho nenhum deles, mas vou tratar de começar a minha busca, pois há tempos não compro um bom disco. Imagina levar cinco numa tacada só?

Mas nesses títulos, na minha opinião, um faltou: "Chico: o professor!". Me alimentando de Chico, como faço agora (por isso o texto), consigo achar cada um desses, tão distintos e, ao mesmo tempo, complementares. As trovas tão bem cantadas, dos tantos eu líricos femininos à espera de seus amores; o dia a dia simplório, como em "Feijoada Completa" e "Sinal Fechado"; a denúncia social e crítica política, reflexos do cenário de seu tempo, em diversas canções, e em particular em "Cálice" (uma das minhas preferidas); os tantos sambinhas malandros, que a gente cantarola feliz, "caminhando na ponta dos pés, como quem pisa nos corações"; enfim, das declarações de amor ardentes e sensuais que "ficam no corpo feito tatuagem", e trazem muitas vezes um certo erotismo, sem ser vulgar. 

Chico é isso! É para todos, paulistas, pernambucanos,mineiros, baianos, etc. Talvez, por isso, seja também um professor. Conheci sua obra ainda menina, pois na vitrola lá de casa sempre tinha uma bolacha a girar essas cantigas. Só fui ter a real compreensão delas tempos depois, mas crescer com esse som aguçou meus ouvidos. Na escola, foi meu mestre em muitas lições. No antigo primeiro grau, o vi durante quase todos os anos da minha vida sentada nas carteiras. Aprendi sobre Grécia, ditadura militar, geografia brasileira, gramática, ao som das cantigas desse certo Francisco (que com certeza será o nome do meu filho homem, caso eu ainda o tenha!).

Mas Chico é professor pra mim também, porque, professor de Português que se preza, adora uma musiquinha dele nas suas aulas. A minha playlist é grande, juntamente com minha coleção de planos de aula. Com "Construção", além da questão temática, consegue-se trabalhar acentuação; "João e Maria", com sua linguagem típica infantil, trabalha-se as variantes linguísticas e rende ainda uma boa aula de verbos; "Olhos nos olhos" é campeã nas aulas de Literatura sobre o Trovadorismo... E por aí vai! Meus alunos não saem da escola sem conhecer Chico. Meus colegas de profissão acrescentarão mais títulos e mais ideias sobre cada um deles.

Chico é mestre, é poeta, é artista. É o maior, sem desmerecer os outros (e sem levar em consideração o meu amor platônico! rs). "Ah, se eu pudesse, não caia na sua!". Mas agora não tem jeito. Não há como não mergulhar nesse vasto universo e retirar dele inúmeras lições, de gramática, de literatura, de redação, arte, geografia, história, de vida! Chico ensina a amar, a viver, a sofrer, a rebelar, a crescer, a apedrejar, a calar, a consolar. Preocupou-se até mesmo com as crianças, pra que as professoras primárias não ficassem com ciúmes. Chico ensina. Simplesmente. Sem mais. E nos induz, docemente, ao desejo de não o esquecer, assim como um caderno, "num canto qualquer."


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