Hoje, pela manhã, o mundo foi surpreendido pela renúncia do Papa Bento XVI. Sob uma forte carga de matérias, discussões, susto, indignação, o fato foi noticiado e, ao que parece, ainda assim, não vai ter retorno. Não me impressiona, não me choca, não me alardeia, mesmo que seja esse o cargo mais importante da Igreja Católica. Talvez tal gesto represente uma crise na tão soberana instituição . Penso, então, que algumas considerações devem ser feitas a respeito desse tema.
A primeira delas diz respeito a necessidade de todo o ser humano, vivo sob essa terra, de descanso. Realmente a idade chega a todos, e o corpo não é mais o mesmo. Embora seja uma escolha de vida, é esse homem apenas um homem, que não possui poderes divinos para extinguir de si mesmo as dores nas joelhos, a falta de ar, e a incapacidade de permanecer em um cargo de suma importância. Posição essa que exige mais que boa vontade e vocação, pede força física e mental, para enfrentar viagens, eventos grandiosos,críticas severas.
Outra consideração importante é que a sociedade, ao que parece, enxerga essa renúncia como se ele fosse Deus desistindo de ser Deus. Povo insano! Não é a Igreja maior que o seu Senhor! Não é a cadeira de Pedro mais importante que o poder divino, a capacidade criadora, a força da fé. Quem ocupa esse lugar, veste-se de luxo e ouro e anda protegido pela mais alta segurança, é muito mais um administrador que um santo. Gerir um cargo que decide os rumos da maior religião do mundo não é passaporte para o céu. É, com certeza, um gesto de renúncia de vida, mas foi feito por um homem, que é tão portador do pecado original quanto qualquer mortal sobre essa terra.
Digno foi esse homem, que teve coragem de dizer que não suporta, reconhecer sua condição frágil de não poder sequer fazer o mais importante de sua missão: pregar o evangelho. Deixar a posição para que seja ocupada por quem tem estrutura de discutir problemas importantes para o mundo, ter clareza para evoluir os pensamentos católicos de sua visão conservadora, e por vezes ignorantes, cativar jovens para a missão da Igreja, o que não vai ser feito por uma figura desgastada e sem carisma. Reconhecer a incapacidade foi um gesto muito nobre, verdadeiramente cristão.
Cristão, porque se baseia na máxima do Rei dos reis, que é o amor incondicional ao próximo. O que faz Bento XVI senão amar? Amar a sua cadeira a ponto de desligar-se dela pelo bem de todos, de não precisar de louvores e bajulações, de reconhecer-se fraco, de aceitar as críticas provenientes desse gesto. Cabe à Igreja, agora, a partir desse ato, rever algumas atitudes, aproximar-se mais da realidade do povo, tirar o gesso que a impede de avançar. Cabe, agora, inspirar-se nesse gesto de amor, e passar a amar também um pouco. Amar o pecador, o divorciado, o falido, a mãe solteira, o sexo seguro, o bem comum e trazer os fiéis para o seu seio, parando de jogá-los ao "mundo".
Uma mãe acolhe, abraça, aceita, ainda que com sermões e palmadas. E é disso que o catolicismo precisa. Acolher todos os seus filhos, sem distinção de cor ou condição. Não era essa a prática de Jesus? Andar em meio ao povo, escolhendo como seguidores os cobradores de impostos, os pescadores, as prostitutas. Ele não escolhia amar quem era batizado, quem fez a comunhão, quem frequentava missas. Ele não estabelecia ritos, gestos, dogmas, sacramentos. Ele apenas amava. É isso que falta à religião: menos palavras e mais práticas efetivas de caridade e amor.
Acredito na religião como uma busca do divino que há em nós. Cada um deve frequentar aquela em que essa liga se dá de maneira mais satisfatória, desconsiderando interesses pessoais. Por isso, sou católica, ultimamente meio fajuta. Nunca gostei desse Papa, pois sempre me pareceu frio e sem carisma. Mas, seu último gesto o colocou em minha grande estima. Não que a Igreja, os padres, o Vaticano tenham que atender aos meus interesses pessoais ou de qualquer outro, pois o individualismo é a grande praga da fé. Mas, para mim, ainda que essa seja uma opinião solitária, Joseph Ratzinger merece aplausos. Pela sua coragem que, respeitando as devidas proporções, me lembra Jesus expulsando os vendilhões do templo, e assim, desconstruindo uma falsa imagem da perfeita religião.
Descanse em paz, ainda em vida, Papa! E aos repórteres, curiosos, metidos a opinar sobre tudo (assim como essa que vos fala), só uma coisa precisa ser dita, parafraseando o Mestre: "Aquele que não estiver cansado, que atire a primeira pedra!"
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