Hoje fiquei ouvindo os comentários sobre o fim de "Avenida Brasil", todos muito variados, mas a maioria deles decepcionados com o final da personagem Carminha. Personagem essa que roubou a novela para si, uma vez que as pessoas assistiam à Carminha, sempre. Adriana Esteves mostrou que figura entre as estrelas verdadeiras, assim como muitos outros, mas a novela foi dela. A vilã que domina a história, que é amada pelo povo, que ainda assim preferiu que ela sofresse no final.
E no nosso imaginário, o vilão tem sempre que "pagar". Vivemos numa sociedade onde todo mundo posta no facebook mensagens de fé, de perdão, de louvor a Deus, mas quando vemos a redenção, achamos que ela é ridícula. Novela é ficção, e pelo menos ali queremos ver o que chamamos de justiça. Estamos tão acostumados com a pizza, que em algum lugar o mal tem que perder. A vida não é uma novela! Não há bandidos e mocinhos, Ninas e Carminhas, Maxes e Tufões. Somos um misto de todos eles, amando, odiando, querendo vingança, invejando, achando bem feito, passando pra trás.
Acho que por isso a ficção nos encanta. E a Rede Globo é rainha em nos encantar com suas novelas. Pelo menos ali temos a falsa impressão de que o mundo é perfeito, de que o bem vence no final, de que as mazelas da sociedade vão ser sempre corrigidas, que o sofrimento é sempre redentor e que no último capítulo todo mundo casa e é feliz! E o melhor de tudo: nós não precisamos fazer nada, a não ser sentar em nossos sofás, com nossas TVs de última geração, com um balde de pipoca e olhar. Ver desfilar na nossa cara aquele monte de "irrealidade".
Enquanto isso, continuamos a eleger políticos corruptos. Enquanto isso, pobres vão morrendo de fome e de frio, nas filas de hospitais, nos lixões verdadeiros, onde ninguém anda de táxi. Enquanto isso, continuamos alheios ao noticiário, ao problema do próximo de verdade, ao engarrafamento da Avenida Brasil, à falta de urbanização de outras tantas avenidas, ao mal uso do dinheiro público, à gente que mata índio, que agride homossexual.
Que sociedade contraditória a nossa! Não permite o beijo gay em novelas, mas acha lindo um final em que um homem se casa com três mulheres. Vive nas igrejas, pregando o perdão, a redenção, o amor, mas acha ridículo que a vilã tenha um final redentor. Quer sempre dinheiro e poder, mas gostaria de morar no Divino. Quem, na vida real, vai preferir o subúrbio à Zona Sul? Sociedade machista, que acha que nenhum homem pode ser sincero e amar de verdade, já que para todos, Tufão é um bobo.
Sou noveleira. Depois de ser mãe, deixei de ser um pouco. Não acompanhei 10 capítulos inteiros dessa novela, mas sei de cada detalhe, pois o assunto era obrigatório em cada roda de conversa. Quando vi aquela menina ser jogada no lixo, preferi não ver mais nada daquilo. Mas acho que, em tudo, temos que ter olhar crítico. Acho que o "oi, oi, oi" da abertura serve de chamado: "Acordem"! O mundo lá fora nos espera. A vida real está aí, onde somos os personagens principais, e às vezes estamos tão ocupados em comentar a novela, que esquecemos de escrever nossas próprias histórias.
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