sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Amor, I love you


Rita fazia o jantar com prazer. Casada de pouco, procurava fazer as coisas para agradar o marido. O mundo vivia a revolução da virada do ano 2000, mas Rita estava alheia a tudo isso. Queria apenas viver no mundo que imaginara, na vida que pensava ser boa, com o homem que escolheu com a razão, com a casa bonita que eles montaram, com seu trabalho estável, com seus cachorros, sua cozinha e sua sala. Descascava batatas, como se esse ato fosse o mais nobre de todo o mundo! Era feliz naquela vida modelada, sem aborrecimentos e sem grandes emoções.

Da cozinha, ouviu soar na sala uma música da qual gostava. Correu até lá, e viu que na  TV passava o clipe, mas preferiu apenas aumentar o volume, voltar às batatas e cantarolar junto, numa alegria construída: “Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você...”. Terminou o jantar com calma, deixou a travessa no fogão, para levar ao forno quando o marido chegasse. Tomou seu banho, na hora de sempre, e sentou-se para ver a novela. E ali ficou, observando os acontecimentos, esperando a chegada do marido.

Era uma moça jovem, inteligente, que aos 25 anos já era funcionária pública estabilizada. Fora criada para não errar. Procurava seguir conselhos, fazer as coisas com perfeição. Sua casa era de uma limpeza, de uma ordem, nada era fora do lugar, nada era fora de estilo, nada era sem combinar. A cama sempre feita, a roupa sempre engomada, a comida sempre à mesa no horário. Funcionava como um relógio, que só para quando acabam as pilhas.

Seu marido, o Garcia, era um homem sério, responsável, de poucas palavras. Conheceram-se na repartição, iniciaram uma amizade que acabou virando namoro. Construíram uma vida moldada em princípios racionais: a esposa perfeita e o marido provedor. Chegava em casa para jantar, sentava-se à mesa a espera do comida, depois banhava-se para assistir ao noticiário, já na cama, de pijamas. Funcionava como um relógio, que só para quando acabam as pilhas.

Naquele dia, ao chegar em casa, Garcia trouxe um amigo da repartição. Passou pela cozinha, onde Rita colocava o prato no forno, beijou-lhe a testa e olhou a travessa com ar de reprovação. Foi para o banho e Rita foi fazer sala para a visita. Quando chegou , reconheceu seu velho amigo da repartição, e sorriu-lhe com saudade. Conversaram sobre diversos assuntos, todos comuns e do gosto de ambos. Colocaram em dia a lista de livros e discos que compraram, os shows aos quais assistiram, os sites que visitaram. Garcia chegou, e o assunto foi se resumindo aos problemas da repartição e do Botafogo.

Rita pôs os pratos na mesa, os copos e talheres com perfeição. Trouxe as batatas feitas no forno e um vinho para acompanhar. Serviu o marido, a visita e depois a si mesma. Buscou um suco, pois não tomava vinho. Jantaram calados. Garcia, com pouco gosto. Os outros dois, como num baquete. Após o jantar, enquanto Rita tirava a mesa e arrumava a cozinha, Garcia mostrava ao amigo sua nova máquina fotográfica, dessas modernas, que batem fotos sozinhas. Para testar, sentaram-se os três no sofá, numa pose. O flash estourou em segundos e todos ficaram maravilhados com a nova invenção do mercado.

Conversaram mais um pouco, até que Rita retirou-se para dormir, e os homens ficaram ainda na sala. Já era tarde quando Garcia despediu-se do amigo. Embora amigos, eram diferentes. Arnaldo era um homem sorridente, de boa conversa, versava sobre todos os assuntos. Era romântico, ainda que vivesse sozinho. Um cavalheiro como os de antigamente, que não se fazem mais nos dias de tanta modernidade. Gostava de música e Literatura, conversava com Rita sobre esses assuntos, e ela gostava disso.

No outro dia, pela manhã, o telefone toca cedo. Um parente do chefe da repartição falecera, e Garcia tinha de viajar para resolver os problemas do enterro. Passaria o dia a e noite fora de casa. Rita levantou-se, arrumou as malas do marido, recebeu o beijo na testa e viu o homem sair pela porta. Ligou a TV e o clipe novamente passava. Dessa vez, ela parou para assistir e enquanto observava, cantarolava: “Amor, I love you/amor, i love you...”. Fez o almoço para comer sozinha e enquanto almoçava, verificou sua caixa de e-mails. Muita publicidade, muito spam. Mas no meio deles, um em especial lhe chamou a atenção. Era um e-mail de Arnaldo, sem título.

Ao abrir, Rita encontrou na caixa de texto a letra da música que ouvira mais cedo. Ficou sem entender os motivos daquela mensagem. Mas suspirava. Beijava a tela do computador com devoção. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades. Sentiu um acréscimo de estima por si mesma, e parecia entrar numa experiência interessante, onde cada palavra conduzia ao êxtase.”

Rita desligou rapidamente o computador, como se não quisesse mais sentir. Mas as palavras não saíam de sua mente. Trancou-se no quarto, batendo a porta com furor, com se ali ficasse escondida do mundo. Mas o mundo estava dentro dela. Não adiantava fugir, as palavras já causaram estrago suficiente. Onde quer que fosse, levaria aquele eco em seus ouvidos, como se a canção não pudesse sair da sua cabeça. Ouviu o telefone. Era Arnaldo. Chamava Rita para um passeio.

Ela ainda relutou, mas o carro já estava na sua porta. Saiu apressada e caminharam pelo parque da cidade. Conversaram sobre Machado de Assis, prometeram empréstimos de livros e CD,’s, sem tocar no assunto do e-mail. Até que, debaixo de uma sombra, uma serenata esperava Rita com a canção, agora dos dois. Arnaldo, com seu violão, declarava seu amor a Rita, na letra da música do clipe. A canção cessou, a banda foi embora, assim como apareceu. De relance, sem ser notada. Arnaldo abraçou Rita, e ao pôr-do-sol, ali mesmo na grama, os dois tornaram-se um.

Rita se entregara a um homem como nunca na vida! Toda a formalidade a que estava acostumada se desfez num momento de gozo. Arnaldo prometera acolhida, mas ela preferiu expulsá-lo. Não sabia se tinha raiva ou prazer. Condenara-se por ter sido feliz! Corria feito louca entre as árvores, em lágrimas que ora eram de prazer, ora de arrependimento. Ao olhar ao seu redor, encontrou apenas a foto revelada dos três: ela, o marido e aquele que lhe dera um momento de felicidade. Atrás da foto, a data e uma frase: “Amor, I love you!”. Guardou a foto em seu bolso e correu novamente em meio às arvores, agora na escuridão calada do parque fechado. Não podia ir embora.

Sentou-se e chorou. Pensou na sua vida perfeita aos olhos dos outros, mas vazia de sentimentos. Pensou na sua casa arrumada, na cama esticada, na louça reluzente em cima da pia, na comida do fogão. Pensou. Fez o que era programada para fazer. Rita sabia pensar, tinha ideias, tinha conceitos, mas não sabia amar. Não sabia ser amada. Não conhecia o romantismo dado a ela por Arnaldo. Estranhava as surpresas, os galanteios, o inesperado. Racionalizava tudo em sua vida, até mesmo o amor. Escolhera Garcia. E não conseguia voltar atrás em sua escolha.

Quando acordou, Rita estava com 60 anos, sentada em uma cadeira, com um bastidor de bordado na mão e a foto do passado em outra. Enfeitava uma mesinha de sua sala. A casa ainda brilhava, como se ninguém vivesse nela. Em outra poltrona estava Garcia, lendo um livro, alheio à esposa sentada a poucos metros. Virou a página, viu um retrato. Um retrato antigo, do dia em que viajara para resolver um enterro. Um dia de tantos anos atrás. Olhou a moça do retrato e sorriu.  Permaneceu ali, inerte, em sua leitura.

Rita levantou-se da cadeira, colocou a foto em seu lugar, deixou o bordado na poltrona e foi fazer o jantar. Beijou o marido na testa e pôs-se  a descascar batatas. Descascava batatas, como se esse ato fosse o mais nobre de todo o mundo! Achava que era feliz naquela vida modelada, sem aborrecimentos e sem grandes emoções. Funcionava como um relógio, que só para quando acabam as pilhas. Pensou em Arnaldo, colocou a mesa, sentou-se em silêncio e jantou com o marido, que olhava a comida com pouco gosto. Rita estava num banquete. Só queria dormir e acordar no outro dia com o toque do telefone.

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