Joana acordou de súbito, com o toque do despertador. Olhou seu celular, desses mais modernos, e viu a hora. Ainda estava cedo para levantar, podia dormir mais um pouco. Deitou-se novamente, mas seus olhos pareciam não querer fechar. Seu coração parecia querer saltar-lhe pela boca. "Que droga", pensou a menina, que não sabia o motivo de tanta ansiedade. Na verdade sabia. Aguardava uma resposta que parecia não vir. Dera-se de forma intensa, mas não obtivera resultado. Não sabia o que pensava o destinatário de todo o seu desejo.
Abria a página da rede social para conferir e nada. A única coisa que aparecia era sua última conversa, suas últimas palavras, sua demonstração de dúvida e nenhuma resposta. Apenas sabia que ele lera sua confissão. Mas permanecia alheio. Ou preferia não responder, ou talvez não tivesse resposta. E isso comia a menina por dentro, como cupins na madeira. Seu coração palpitava, suas mãos tremiam. Aguardava aquela resposta, como quem aguarda o melhor presente de sua vida. E ela não vinha. E ela parecia a "garotinha esperando o ônibus da escola sozinha, cansada, rezando baixo pelos cantos, por ser uma menina má.. Era poeta, mas não aprendera nada sobre o amor.
Era uma jovem ainda, quando perdera seu primeiro namorado. Não sabia como recolher seus cacos do chão. Era imatura e não estava acostumada a perder. Então, como se a vida mostrasse que o tempo vai acalentando os corações, foi conhecendo outras pessoas, olhando novos horizontes, experimentando o novo. Mas seus cacos permaneciam no chão. Inertes. Como se alguém tivesse que catá-los para ela. Não sabia resolver seus problemas de forma simples, assim como fazia com suas provas da faculdade. Era excelente em pensar, a melhor aluna da classe, desempenhava esse papel com maestria. Mas era péssima em amar! Ou pelo menos não sabia como lidar com os sentimentos. Tudo que sentia a arrebatava por completo, tomava conta de seu ser, engolia sua capacidade de seguir em frente. Ansiava por viver logo, fosse a dor ou a felicidade.
Nesse momento de instabilidade, ela o conheceu. Era uma pessoa como Joana, inteligente, mas falho na difícil arte dos sentimentos. Embora mais velho, ainda era inexperiente. Aproximou-se de Joana por conta de afinidades, tornaram-se amigos, saíam juntos. Ela o confidenciara sua vida, seus medos. Ela sentia-se bem ao lado do amigo, que ria com ela, ouvia com ela as músicas das quais gostava, conversava com ela sobre seus livros, como ninguém um dia fizera. Os dois eram como um. Mas ao mesmo tempo eram diferentes.
Um dia, numa dessas saídas, foram parar num beco, perto da casa de Joana. Ali, os ainda meninos, entregaram-se à paixão. E no outro dia, fizeram novamente o mesmo percurso. Mas Joana era inconstante. Estava perdida, como num labirinto, sem saber que caminho seguir. Estava como um pêndulo, que vai e vem sem parar e nunca escolhe o lado que quer ficar. Naquele momento escolheu não parar. Escolheu balançar para lá e para cá, dar cabeçadas na vida, errar e errar cada vez mais. Ia, vinha, ia novamente, rasgando seu coração com tanta instabilidade. E ele ali, vendo a menina destruir-se sem conseguir ou poder fazer nada.
Quase dez anos passaram. E Joana estava agora em frente ao computador, esperando sua resposta. Nesse tempo, os dois seguiram caminhos diferentes. Perderam-se de si, acharam-se e perderam-se na vida. Mas o tempo que separou os dois, resolveu dar novamente um ao outro. Não eram as mesmas pessoas, não eram mais os meninos daquele beco. Cada um escreveu uma história distinta, e pareciam não reconhecer no outro o amigo de antes. Não sabiam mais quem eram, pois não conversavam mais, não riam mais juntos, não faziam mais brincadeiras, não saíam mais para tomar caipirinha e fazer piadas. Cada um traçou a sua história, longe do outro.
Mas, ao reencontrá-lo, Joana lembrou-se de seu amigo de antes. Não sabia mais como voltar a ele. O pêndulo agora estava inerte. Imóvel. Não sabia ir, não sabia voltar, não sabia errar, mas também não acertava. Mas veio um vento e sacudiu sua vida. Agora ela já sabia catar seus cacos do chão. E assim o fez. Não sobrou nada. Foi difícil, mas ela conseguiu juntar tudo rapidamente, como se cata um copo que cai no chão. Com seu amigo ali novamente, vendo a menina reconstruir-se, agora podendo fazer alguma coisa, por mais que pouca. Joana parou para ouvir seus conselhos. Conseguiu filtrá-los e não se sentia mais sozinha. Amadurecera com o passar dos anos e das situações.
E Joana novamente sentiu-se bem ao lado do amigo. E foi voltando àquela sensação boa que a amizade lhe causava, foi voltando àquele homem, foi voltando àquele beco. E chegou ali, como se nunca tivesse saído. A certeza que não tivera naquela hora, agora era clara como água. Seu coração pulsou forte. Lembrou-se daquelas noites, como se elas fossem as noites anteriores. Sentiu tudo que estava preso saltar de dentro de si, tomar conta de seu ser, atingir seu coração e ali ficar, como um cupim na madeira. O sentimento corroía Joana. Achava que não tinha mais tempo a perder. Queria viver de novo aquele sentimento.
Não queria voltar àquele beco, mas queria explorar novos becos, ruas e vielas. Não estava mais no labirinto. Tinha noção agora de cada passo e sabia aonde queria ir. Apareceram companheiros para essa nova caminhada, mas ela não queria nenhum deles. Queria apenas o que sentia ser seu. Não por direito, não por conveniência, mas que sentia ser seu por seus sentimentos. Joana só queria sentir. Não queria mais pensar, não queria racionalizar o amor. Só queria amar.
Mas aquele que viu Joana entrar no labirinto e perder-se lá dentro talvez tivesse medo. Não queria adentrar novamente no seu labirinto pessoal e não conseguir sair dele. Tinha curiosidade e desejo. Mas oscilava. Tornara-se agora o pêndulo, que fica para lá e para cá, sem saber onde e como parar. Ela não sabia muito mais sobre ele. Nunca conseguira adentrar nos seus sentimentos. Ela era transparente, mas sua visão sobre o outro lado estava turva, encoberta por uma nuvem de fumaça. Não sabia o que o outro sentia e esse insistia em não responder. A angústia tomou conta de Joana.
Resolveu aproximar-se, acertou, errou, evoluiu, involuiu. Mostrou-se toda. Entregou seu ouro ao bandido. Mas permanecia vendo o turvo, o incerto, o falhado, como uma tela Impressionista. Sugestão. Mas nunca a clareza. Joana viu-se em conflito. Queria tanto e não conseguia um retorno objetivo. Apenas possibilidades, hipóteses, talvez. Resolveu insistir. Pediu mais uma vez. E agora não tinha resposta alguma. Não sabia o que pensar, porque nem um tchau tivera como resposta. Nada. Apenas o silêncio.
E agora ela permanecia ali, de frente ao computador esperando a resposta. Talvez já saiba qual seja ela, ainda que não queira, mas aceite. Não podia cobrar nada daquele que uma vez quis lhe dar tudo. Mas ela desejava e não conseguia ser pragmática, pois esse desejo cegava-lhe os olhos e a emoção sequestrava as razões da moça. Ficou esperando, sem saber que a resposta já lhe havia sido dada, dias antes, num poema que o amigo lhe escrevera : "Não tenha pressa da luz, não tenha pressa de nada."
E Joana escreveu, transmutando a sua ansiedade em poesia.
ResponderExcluirAcompanhando! ;)
Obrigada, Mari, por acompanhar!
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