sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Menina da lua

-Moça! Já estamos no ponto final!

Carolina acordou de súbito. Perdera o ponto de descida do ônibus. Queria ir ao centro da cidade, para fazer uns serviços bancários e comprar mantimentos. Saíra de casa apressada, pois já estava em cima da hora. Tivera um dia de cão. A manhã fora cansativa no trabalho. A noite mal dormida, a discussão de dias anteriores, a ideia da demissão, tudo descontrolara a moça. Tomou ônibus perto de sua casa, pôs seu celular para tocar suas canções, pôs o fone do ouvido e acabou cochilando no caminho. Não se preocupara com o grande valor em sua bolsa, com o encher do ônibus. Sentara-se na última cadeira e ficou ali, ouvindo Caetano Veloso. Acordou com o chamado do cobrador.

-Que merda! - gritou Carolina. Desculpe, moço. A culpa não é sua.

Precisava resolver os problema naquele dia e o adiantado da hora não a permitiriam chegar a tempo de pegar o banco ainda aberto. Resolveu então, que voltaria para casa e que no dia seguinte resolveria os seus problemas. Colocou os fones novamente e ficou esperando o próximo ônibus, enquanto observava o movimento de carros e pessoas na Avenida do Contorno. Foi quando se deu conta de que a música que tocava  no momento tinha seu nome. Atentou-se para aquela letra. "O tempo passou na janela, mas Carolina não viu."

Foi então que a moça percebeu sua passiva condição de assistente da vida. Passou todo seu tempo limitando-se a assistir aos outros, a buscar soluções para os outros. Largara os estudos para ajudar nas despesas da casa. Sonhava em fazer faculdade de enfermagem, pois cuidar era uma espécie de dom. Embora pobre e pouco letrada, era culta. Varria sozinha os cantos da cidade, em busca de informação, de músicas novas, de gente inteligente. Ia a eventos gratuitos, conversava com os donos das bancas de jornais, que lhe garantiam a leitura diária de todas as informações. Carolina era, sem ser. Não tinha canudo, mas tinha o mundo!

E tendo o mundo, não tinha nada. Não podia comprar um disco de seu cantor favorito. Não podia ir ao teatro e ao cinema. Não podia comprar um exemplar de "Cem anos de solidão" e ia lendo aos poucos as páginas dessa história,numa banca de jornal, com melancolia e lágrimas nos olhos. Vendia biquínis pela manhã, como num trabalho  escravo, fizesse chuva ou sol. Mas não conseguia realizar seus sonhos.Não conseguia ser aquilo que sonhava. Nem amar ela sabia. Sua condição de vida não lhe permitia condições de amar.

Mas ela amava. Amava o jovem entregador de jornal da banca em que passava todos os dias para ler seu livro. Olhava-o com um amor ingênuo, de um botão pronto a desabrochar em flor. Sonhava com um beijo como os que via nas novelas de época que amava! Mas não conseguia expressar seus sentimentos. Ele nunca olharia para ela. Ela era apenas uma louca, que sentava no banco e lia duas páginas de um livro por dia. 

A percepção que a música trouxe à Carolina fez com ela ficasse imóvel. Sabia que o tempo passava pela janela da sua vida e ela não via nada. Não tinha passado, não tinha presente e não vislumbrava futuro. Resolveu que não iria mais embora. Precisava reaver o tempo, precisava ser alguém. Resolveu caminhar para pensar numa solução para sua triste vida. Desligou a música e pôs-se em direção contrária à praia.

Quando viu, estava na Passagem. As casas antigas, o cenário bucólico levaram Carolina ao passado. Estava com roupas brancas, longas e de renda. Carregava uma sombrinha e uma pequena bolsa. Usava luvas e um colar de pérolas. Os cabelos presos sustentavam um chapéu. As pessoas que passavam pelas ruas a cumprimentavam e ela sorria. Era alguém. Estava sendo vista. Os tílburis passavam, os cavalheiros com suas esposas, e todos a olhavam e a veneravam, como ela fosse a sua rainha. Continuou a andar, passou pelo Largo de São Benedito e virou para a rua que margeava o canal.

Já não tinha mais as roupas brancas. Vestia-se agora de roxo, num vestido um pouco mais curto, de meia-calça e  sapatos de verniz. O cabelo, no corte estilo Channel, carregava uma faixa colorida. Fumava uma cigarrilha, quando viu o rapaz da banca passar. Tinha uma roupa alinhada. Parecia rico também. Olhou para Carolina e seus olhos a atingiram como um raio. Sorriu para ela , com seu ar de malandro. Ela retribuiu o gesto e parou. Ficou esperando que ele viesse ao seu encontro. Ele apenas a abraçou e lhe deu o beijo de novela que ela tanto sonhara!

Continuou a andar e quando viu já estava próxima ao Forte São Matheus e o sol já havia se posto. Estava de novo com seu jeans surrado e camiseta velha. Ouvia novamente suas músicas. E caminhava em direção às pedras e ao mar. Mas não sentia-se mais vazia. Era a dama antiga cheia de elegância. Era a moça que havia sido beijada. Estava feliz! E o encanto da ondas batendo no mar atraiu a moça. E ela começou a subir,  e a admirar aquele cenário. A lua, radiava no céu, cheia. 

Olhou para a lua com súbita emoção, como se nunca a tivesse visto na vida! Sentia-se cheia. Estava farta de  minguar. Estava farta de oscilar entre o nada e o nunca. Queria manter-se plena, naquela condição nova. Queria crescer, crescer e crescer. Olhou o mar. Estava de ressaca. As ondas batiam forte e espumavam nas pedras. Quando deu por si, a lua estava ali, em meio àquela revolução. Queria ter a lua! Queria ser a lua! Não queria mais aquela vida de miséria. E assim como aquela que enlouqueceu e pôs-se a torre a chorar, Carolina lançou-se na direção da lua. O mar tragou a moça em segundos. Era, agora, apenas parte da ressaca.

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