Estava vendo alguns catálogos de livros para escolher os paradidáticos para 2013 dos alunos da escola onde trabalho. E de repente, em meio a um mar de livros, surgiu aquele que marcara a minha vida feito brasa em pele. Não pelo fato de ser formada em Letras. Antes ainda, já tinha me tomado por essa força que emana do livro. Cheirei o exemplar, como sempre faço com livros novos, para sentir novamente a mesma maravilhosa sensação. E comecei a folhear, olhando as páginas à revelia, até que me surgiu esse trecho:
“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles
olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles
foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova.
Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga
que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes
vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as
pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e
tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse
tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de
querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.” (Dom Casmurro, Machado de Assis)
O que esse livro representa pra mim é mais que o fato de ser uma grande obra da Literatura Brasileira. "Dom Casmurro" são os olhos ressaca, que me arrastam para dentro. E por quê? Por causa dela: a cigana oblíqua e dissimulada. Capitolina, aquela que de dissimulada, ao meu ver, não tinha nada! Betinho que era fraco, ingênuo e mimado. Capitu era o que era! Tinha uma personalidade forte, sabia o que queria da vida, mas não dissimulava. Era mais inteligente que Bento, mais livre que ele. Ela é um capítulo à parte nessa narrativa, que nos mostra uma mulher descrita por um narrador velho, amargurado e rancoroso da vida.
Bentinho aceitava qualquer prerrogativa que lhe impunham, pois não sabia pensar sozinho.Fora José Dias quem o alertara, numa conversa que ouvia escondido, sobre seu fascínio. Vivia numa severa obediência à Dona Glória, o que o tornou um ser manipulável, passivo, assistente da vida e não agente. E ao encarar os olhos da ressaca, permitiu-se entrar nela, pois somente sabia seguir. E Capitu tinha sim seus encantos. Ela era cheia, intensa. Era a cigana e, com sua dança, ia envolvendo Bentinho no seu jogo. Não por interesses outros, mas por gostar dele.
Mas a narrativa do já casmurro, infeliz e solitário, que não tinha mais àquela época da vida quem o conduzisse, nos leva a acreditar em uma senhora leviana, que o traíra com seu melhor amigo. A visão realista da época, com seu olhar cientificista, não soube questionar Bento. Colocaram Capitu no banco dos réus. A traição aconteceu! Ele assim o disse. E não há o outro lado da história para pôr essa verdade em prova. Só que o tempo mostrou que em "Dom Casmurro" não pode haver verdade absoluta justamente por isso. O narrador em primeira pessoa conta apenas o seu lado da história.
E quem é esse narrador? Alguém que a todo momento evidencia não se recordar com clareza os fatos do passado. Um homem dependente e obcecado, que tenta reconstruir seu passado copiando a antiga casa, numa tentativa de resgatar o que nunca fora. Um homem que fora um menino frágil, que tinha ciúmes da amiga até mesmo com um vendedor que passava. Um homem com o coração chagado por uma mágoa infinita, que, com a maturidade, reconheceu que Capitu era mais mulher do que ele era homem. Um homem com h minúsculo. Que isenção pode haver nos relatos desse Dom?
Capitu tinha sim olhos de ressaca. Trazia Bentinho para ela, sugava-o para dentro daquela beleza, do qual ele não conseguia fugir. Os olhos o atraíram tanto que ele permitiu que fossem seus próprios olhos. Ele só sabia olhar por eles, só sabia se conduzir por essa visão. Na cena acima, Capitu não desvia seus olhos, mas ele se permite buscar outras partes dela. Não encara. Não se mostra. Até que se rende àquele olhar, à dança da cigana, à mulher inteira que ali se desfigura, ainda que menina.
Ao fim do romance, ele questiona se a Capitu adulta já estava na menina da Praia da Glória. Acho que ele acabou se trocando por ela. Ela sempre foi o que era. Mas o que ele não conseguiu enxergar é que o Bentinho de Mata-cavalos e o Dom Casmurro estavam um dentro do outro, "como a fruta dentro da casca". Nunca se permitiu brotar, nunca se permitiu amadurecer. E quando perde seus olhos, não consegue sequer, contar a história da sua vida sozinho! Quis o destino que acabasse se confundindo e nos enganando. "Que a terra lhe seja leve! E vamos à História dos Subúrbios."
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