segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A virgem dos lábios de mel

Quando comecei a escrever meus contos , minha primeira personagem foi Ana, por conta da homônima do conto "Amor", de Clarice Lispector. Depois, veio Rita, em homenagem a Machado. E minha terceira protagonista foi Joana. Por fim, percebi a coincidência com parte de uma música de Ana Carolina, que canta suas mulheres e as denomina Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina. Decidi, então, fechar o ciclo das minhas bambas e criar Iracema e Carolina. As três primeiras vieram ao meu encontro, nítidas, claras, como entidades. Contaram-me suas histórias e as coloquei no papel. E pensei em Iracema. E ela não veio. Não apareceu, não me contou nada.

Percebi então, que ela já me viera, que sua história já fora contada. E que a mim cabem apenas reflexões sobre ela. "Iracema, a virgem dos lábios de mel". A conheci na faculdade. Lendo o romance de Alencar, achei a minha mulher de sentimentos livres e entregues. No folhetim de 1865, Iracema é uma índia com "os cabelos mais negros que a asa da graúna", que guardava o segredo de sua tribo. Representava sua  própria terra natal, com seus encantos e riquezas naturais. E eis que chega Martim, guerreiro branco, e leva a pureza da moça, leva seu amor, leva sua vida. Desse amor, nasce Moacir, o filho da dor.

José de Alencar construiu uma grande alegoria. O romance também é conhecido com Lenda do Ceará, pois Moacir seria o primeiro cearense, símbolo da exploração europeia . Iracema é anagrama de América. E ambas carregam o estigma de exploradas, as belas e puras, que têm o seu ouro saqueado por aquele que vem, instala-se e leva o melhor, sem oferecer nada em troca. E a jovem índia morre  de tristeza, padece por aquele que a sugara por inteira. E deixa como herança um rastro de passividade, de servidão, de escravidão.

Anos mais tarde, Chico Buarque procurou a sua Iracema. Agora, ela voou. Foi para a  América. Não essa, latina, que continua o legado da índia de Alencar, mas para a do Norte, onde o capitalismo selvagem sugere ser o melhor lugar do mundo para as oportunidades. A condição de explorado e explorador agora inverte-se. Em vez de chegar, emigram. Saem do Brasil em busca de melhores condições de vida, mas continuam em sub-empregos, continuam em condições sub-humanas, lavam "chão numa casa de chá", ambicionam, têm saudades, não dão mole para a polícia. Martim continua vivo, agora chama-se dinheiro. Continua a levar nossas Iracemas para a tristeza e continua gerando filhos da dor.

O que poderei eu contar mais a respeito de Iracema? Ela já está aí, pronta para ser lida e ouvida. E quantas Iracemas vamos encontrar? Todos os dias elas andam por aí, trabalham, sustentam suas casas, apanham dos maridos, perecem nessa vida. Carregamos conosco essa essência, esse desejo, essa entrega quando amamos sem medida, quando nos doamos sem buscar nada em troca. Minha heroína está bem representada. A mim, resta calar a minha voz e deixar que ela se conte na voz de quem a soube fazer com maestria! Termino com o link da canção de Chico. E que venha Carolina!




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