quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Primavera manuscrita

De tanto apanhar, um dia a gente aprende a bater. Cansei de tomar rasteira e ver minha cara esfregada no chão e ainda levantar sorrindo. Chega! Não vou mais permitir que me cortem até sangrar e tomar analgésicos para ver se a dor passa. Cansei de paliativos! Quero soluções. Não vou mais permitir a dor. Não vou dar meu coração, com faca e queijo na mão para despedaçarem. Não vou mais esperar que alguém me traga rosas. Eu mesma vou até lá buscá-las, nem que seja na floricultura. Cansei do raso. Prefiro morrer afogada no mar de minhas lágrimas a ser um sorriso no porta-retrato que vai desbotando com o tempo. Quem não se aprofunda, acaba boiando. Quero "o açoite das palavras rudes, para que eu possa me defender com atitudes." Faço questão de tudo agora: do último gole, do último abraço, do último centavo. Mudei de rumo, mudei de rota, mudei de caminhos. Do salão até minha casa, passo por novas ruas. Quem sabe não me dou com a sorte? Com a "sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida", com a sorte de ouvir aquela cantada de pedreiro que  levanta o astral, com a sorte de encontrar minha loja favorita em liquidação, com a sorte de achar aquele filme que procuro há séculos disponível para ser alugado, e talvez, sem pedir pouco, com a sorte de achar o bilhete premiado da Sena. Os dias passam, e assim a casca vai ficando mais dura. Menos pessoas passam a merecer minha atenção. Menos pedidos passam ser feitos. Menos cobranças, mais sorrisos, mais amigos, mais música para dançar, mais desejos para realizar. Liguei minha geladeira. Me perturbou? Dou gelo. Aprendi a ser inverno, a trovejar, a fazer chover. O outono veio e me desfolharam como a uma árvore. Fui podada, mas o mais importante ficou: as raízes. E agora, a primavera traz novos galhos, dessa vez frondosos, e lindas flores. Quem quiser, abrigue-se em minha sombra. Caso contrário, mando logo um palavrão. Quem estiver disposto, vai ter de mim as flores. Mas quem me perturbar, vai ganhar é meus espinhos. E que venha o verão!

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