sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Devaneio

Ana encontrava-se na cama. Lia o conto, cuja protagonista tinha seu nome, de Clarice Lispector. O dia havia sido revelador e ela tentava ler para esperar o sono chegar. Estava aprisionada em pensamentos de uma vida destruída com a morte do marido, há apenas 3 meses. A viuvez chegara para aquela jovem senhora, que não soube lidar com ela. Mas o tempo, esse senhor de todos os destinos, revelara para ela que havia uma gota de esperança. Lia a história de sua homônima, e a catarse experimentada por essa causaram náuseas na viúva. Não sabia se a angústia vinha de sua leitura ou da conversa de mais cedo. 

Um banho gelado! Era o que ela precisava, para esfriar a cabeça daquela mistura de sensações. E quanto mais a água caia, mais Ana ia se perdendo em seus pensamentos, como se aquele banho a limpasse de toda a tristeza e fosse revelando uma nova mulher, limpa de suas mágoas, alvejada, como um papel novo, a espera de uma boa história. Deitou-se na cama vazia, cerrou o livro, tomou seu calmante e começou a  trocar canais da TV. Passaram novelas, propagandas, programas religiosos, desenhos, tudo alheio àquela mulher, que olhava, mas não via, que tinha os olhos semi-abertos pelo cansaço e pelo remédio, mas os pensamentos fechados naquele momento. 

De repente, o telefone toca! Num sobressalto, ela olha para a tela de seu celular, e vê um nome. O nome que ela sempre esperara! O nome que havia despertado nela novamente o desejo de ser mulher e ser feliz! A voz do outro lado da linha, comunicara que o dono daquele nome estava em frente à sua casa, para um passeio. Era tarde! Era insano sair àquela hora! Mas a menina que ainda sonha com o amor, levantou-se, pôs a primeira roupa que vira e saiu em direção àquele nome, sem pensar em nada além daquele convite.

De sua casa, ao destino Ana e seu companheiro conversaram sobre trivialidades. Mas a conversa de cedo, deixara a moça numa tensão velada. Não sabia como manifestar aquele desejo expresso em palavras, não conseguia manifestar em gestos o que desejava. O caminho era curto, mas Ana pensou fazer a viagem mais longa de sua vida. Chegaram à praia, naquela hora, deserta, em poucos minutos. O silêncio gritou no coração de Ana. Saltou do carro, num gesto de reação ao que não sabia ser a ação.

A prainha em que estavam tinha o mar calmo e a lua refletida no espelho d'água, redonda e amarela. Aquele mar tragou a agora menina, pois diante daquela visão, ela simplesmente se viu jovem de novo, adolescente inconsequente. Seu impulso foi apenas um: despiu-se peça por peça e correu em direção ao mar. Ana experimentou de novo a sensação purificadora da água. Aquele banho,como o de cedo, creditara a ela, de vez, o direito de fazer-se de novo! O acompanhante apenas olhara para a cena, extasiado com a beleza daquela  imagem: uma mulher se renovando, se refazendo, se preparando para ele. Apenas para ele. Quis acompanhá-la, mas preferiu observar a metamorfose se realizar diante de seus olhos.

A lagarta virara borboleta! O mundo virou Ana ao avesso! Tirou-a do casulo de sua existência pré-fabricada, forjada pelo desejo de perfeição que sempre buscou, mas nunca alcançara. O mergulho desnudo deu a ela a sensação de nascer de novo, como o bebê que deixa o útero. Deixou o mar com resistência, mas precisava sair dali. Cada passo em emersão, ia trazendo a nova Ana, agora mais forte, mais livre, menos exigente e desejosa de ser feliz, unicamente!

A água e o vento fresco gelaram o corpo da moça, que aqueceu-se numa toalha, sentou numa canga estendida, e aceitou um copo de rum saborizado que seu companheiro lhe oferecera, para se aquecer. O silêncio gritou mais uma vez! Ana apenas olhou naqueles olhos! Nada mais precisava ser dito, nada mais precisava ser conversado. A conversa de mais cedo já revelara o intenso desejo dos dois. Então, sem palavras, os dois tornaram-se um, sem os pudores de outrora, resgatando um sentimento que ficara guardado por muito tempo. 

Mais uma vez, Ana sentiu o  tempo parar. Agora, na tentativa de eternizar aquele prazer nunca sentido. Não queria ir embora. Não queria mais nada no mundo. Queria ficar ali, sendo amada. Queria continuar sedendo aos seus instintos de fêmea, que nunca experimentara sabor semelhante! A borboleta alçara voo rumo ao infinito chamado felicidade! E ali ficaram, Ana, seu companheiro e o sabor do gozo que parecia não ter fim. Não se sabe quanto tempo se passou entre a chegada da lagarta acuada, e o libertar da colorida alma que se fazia nova ali. Terminou de beber a garrafa do rum, pois queria inebriar-se por completo. O porre de felicidade libertador!

Em silêncio, rumaram para casa. Em silêncio, Ana saltou do carro. Apenas sorriu. E aquele sorriso revelara ao companheiro todo amor e toda gratidão que sentia. Ele compreendeu, retribuiu o sorriso, e virou a esquina. Ainda tomada por aquele prazer, subiu as escadas de sua casa, jogou-se em sua cama e permitiu-se apenas a ficar ali, imóvel, com um sorriso nos lábios, com a sensação de ser amada cravada em sua pele, com seu desejo realizado e ainda pulsante. Aquela sensação perturbava-a. Fechava os olhos, para ver e rever na memória o filme daquela transformação.

Quando os olhos se abriram, Ana viu-se na cama, com o livro de contos cerrado entre seus dedos, os cabelos molhados, a TV ligada num canal que desconhecia. Ana sorriu. Sentia sua nova carne, seu novo coração pulsar em seu peito. Sentiu forte o prazer daquele momento. Ficou sem saber se devaneava ou se toda a sua catarse fora real. O sol mostrava seus primeiros raios. De repente, o telefone toca! Num sobressalto, ela olha para a tela de seu celular, e vê um nome. O nome que ela sempre esperara!

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