sábado, 2 de março de 2013

O inesquecível disco vermelho





Em 1994, tinha apenas 12 anos. Em 1994, estava na antiga sexta série. Em 1994, ainda não tinha dado meu primeiro beijo. Em 1994, crescia ouvindo músicas aos sábados, na hora das faxinas ou dos almoços no quintal, em família.. Em 1994 ainda ouviam-se LPs, em vitrolas conduzidas por agulhas que a gente soprava pra tirar a poeira e as músicas não ficarem pulando. E ainda medíamos milimetricamente a direção da mesma, para cair certinho na faixa escolhida. Em 1994, as músicas de um disco dividiam-se em as do lado A e as do lado B.  Em 1994, meu pai comprou um disco.

E, foi ali, em 1994, que conheci o profeta. Por causa desse disco, que era o registro de um show ao vivo, meu pai dizia: "Gilberto Gil é um profeta!". Na ocasião, acreditava ser essa mais uma das viagens de meu pai. Mas de uma coisa eu tinha certeza: gostava daquelas músicas. Minha bagagem cultural ainda resumia-se a uma pequena bolsa de mão, mas as canções foram colocadas ali. Entre flanelas e vassouras, entre conversas de churrascos, elas iam, uma a uma, internalizando em mim. Ficaram ali guardadas. E o disco, cuja a capa era branca, mas tinha uma arte em que predominava o vermelho, foi entrando na minha lista de favoritos. O inesquecível disco vermelho!

Passaram-se quase vinte anos. Mas ainda hoje as músicas pulsam em meu coração. Inesquecíveis, todas elas. E Gil, com seu jeito que Deus deu, como a todo menino baiano, tornou-se um de meus artistas preferidos. Ele é profeta, com sua capacidade de anunciar boas novas, em forma de letra e música, de poesia, de afago. É voz que clama, talvez em deserto. Voz doce, voz bárbara, que, de uma certa forma, traz  a paz em pequenas frações de minutos de lindos acordes. Hoje compreendo as palavras de meu pai. 

Hoje, não se vêem mais vitrolas. E o disco vermelho tornou-se um depósito de poeira de uma casa decadente. Nesse espaço de tempo, procurei por ele. A cada ida a uma loja, meus olhos percorriam as prateleiras cheias de canções vazias. Quase um garimpo, que trazia, na peneira, algumas obras muito boas, mas nunca ela. Com o tempo, acabei me esquecendo do disco. Não das músicas, apenas da compilação delas em uma única obra.

Mas o tempo é rei, e sempre nos lembra o que queremos esquecer, mas também dá um jeito de trazer boas lembranças. Numa inusitada conversa, quase ao raiar do dia, conversa de bêbados sóbrios, inebriados por uma saudade, por afinidades, por risos despretensiosos, a lembrança veio. Cantarolada, numa singela música, de forma doce. E depois, canção por canção, foram invadindo a minha memória, junto com a lembrança da procura e da vontade de ter o disco.

E garimpei novamente, agora com sucesso! Junto de Gil, ainda vieram os outros doces bárbaros, em álbuns que também não se acham em bancas de camelô com tanto sucesso. Mas que conseguem fazer essa difícil busca valer muito à pena. O "Unplugged" finalmente de volta aos meus ouvidos! Entre flanelas e vassouras, entre conversas de churrascos, agora já internalizadas, as canções vão fazer minha vida um pouco mais feliz.

Gil, com suas músicas de profeta, sua alma cheirando a talco, suas metáforas, jogo de palavras e retóricas, sua sede que pede, lindamente um copo d´água, conseguiu reunir em pouco mais de uma hora, o sentimento de uma vida inteira! E o inesquecível disco vermelho agora se apresenta na minha TV, agora também em imagem, com uma qualidade um pouco duvidosa, devido ao tempo. Mas as canções... Ah, as canções! Os mesmos acordes, a mesma sequência, o mesmo pulsar no meu peito de, outrora broto, agora flor desabrochada. O mesmo movimento oscilante, de um lado pro outro, ritmado de acordo com a música. O mesmo cantar, acompanhando cada letra, de um jeito meio desafinado. A mesma tentativa de assobio, para acompanhar o solo de "Esotérico", que para mim, é uma das melhores músicas desse disco, cheio de melhores músicas.

Só me resta agradecer a Gil por ter feito essa maravilha, por ser essa voz das multidões, essa voz de cada um e todos, de si mesmo e de muitos. A meu pai, por, em 1994, ter comprado aquele disco e ouvi-lo de forma incessante. À procura sem sucesso, que me fez valorizar ainda mais o feito, depois de conseguido. Ao bom papo, que me trouxe a lembrança do disco e me fez procurá-lo novamente, e encontrar até bem fácil, junto com alguns outros tesouros. Com certeza, "a paz invadiu o meu coração", com a chegada do inesquecível disco vermelho.



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