segunda-feira, 20 de maio de 2013

A deusa coroada

É com um grito na alma que cerro mais um livro. Não um livro qualquer, definitivamente. Um misto de lágrimas, uma certa gargalhada, um cheiro, um abraço, uma veneração à quatrocentas e poucas páginas revestidas por uma capa, onde se vêem cartas antigas amarradas num barbante vermelho. Uma história, uma catarse. Nada mais será como antes, depois de "O amor nos tempos do cólera". Uma história de amor, ao meu ver, mais bela que a de Shakespeare, que traz a morte como redenção. Aqui, Gabriel Garcia Marquez não coloca redenções para o amor: o amor não se redime, assim como a vida e o destino, que por vezes colocam-nos em labirintos e outras, em largos caminhos retos.

Florentino Ariza e Fermina Daza são personagens complexas, extremas, carregadas de uma humanidade fora do comum. São protagonistas e antagonistas do mesmo sentimento, ainda que esse seja um grande paradoxo. Não são brigas familiares, circunstâncias do destino, ou qualquer outro fator externo que impedem a realização do amor. É o próprio amor, contrariado, contrariante, conflitante, dividido, passional, racional e quantos adjetivos mais forem necessários para se descrever o que simplesmente não se define. É tudo amor, em sua essência, ainda que esse não seja o esperado, o desejado, o preterido, o preferido. Fazendo uma análise superficial, o casal representa duas faces de um mesma sensação. Faces essas que permeiam as relações de todos, que ora são a paixão sem freio e delirante de Florentino, ora a razão de Fermina. 

Outra feliz surpresa desse livro, é a descoberta de uma personagem. Sem dúvidas, Fermina Daza é, e creio que será para sempre, a "pessoa" mais fantástica que já li. Florentino se revela ao todo, se entrega, e é entregue a nós pelo narrador. É "todo amor", é um pobre homem, um vivente à sombra de um paixão de 50 anos, 9 meses e 4 dias. É ele a sombra de um sol configurado numa mulher, pois era apenas isso que Fermina era: MULHER. Dessas de carne, osso, qualidades e defeitos, muitos defeitos. Recusou o título de "deusa coroada", para ser uma escrava de sua existência matrimonial, de sua rotina, de uma vida talvez melancólica, mas de verdade. Fermina era firme, com o perdão do trocadilho. Firme em ser, em realizar, em desfilar com seu jeito particular, que um posto de deusa não permitiria.

Por um momento eu quis matá-la. A odiei com toda a força da minha alma. Mas ela é apaixonante, com seu jeito por vezes ríspido de lidar com o amor, com seu estilo irreverente de encher baús de cacarecos e animais exóticos, com sua postura social ensaiada, seu jeito peculiar de se esconder no banheiro para fumar, seu jeito nem um pouco semelhante ao de uma deusa. Fosse ela coroada, poderia desfrutar da vida que teve ?  Fosse ela endeusada, poderia ser essa leviana a alguns olhos mais idealizadores do amor? Fosse ela revestida de rainha, poderia amar nesse jeito todo dela, mas que nem por isso deixa um instante de ser amor? São perguntas que ficarão sem respostas, pois numa obra de ficção não há espaços para hipóteses. Além disso, a construção da personagem não permite muitas conclusões e pouco se sabe de seus pensamentos e sentimentos. Talvez porque esses sejam simplesmente simples, diferentes do ideal de sentimento que carregamos desde a infância, por causa dos contos de fadas. 

Não há príncipes e princesas nessa história de amor. Apenas um sujeito taciturno, numa vida de surdina, que em nada se compara à imagem romântica dos protagonistas de histórias de amor; e essa pérola dentro da ostra, que carrega uma preciosidade impar, alheia aos desígnios da paixão, mas não ao amor. E a vida é exatamente isso: amores que não se realizam, que matam, que morrem, que duram um dia, que duram a vida inteira, de acordo a experiência de cada um. O amor não é esse teatro ensaiado, onde beijos são transformadores de personalidades, em que todos são felizes no final. A felicidade do amor se constrói diariamente, em pequenas doses até mesmo de conflitos, assim como no casamento de Fermina. A felicidade do amor pode ser construída no jeito peculiar de Florentino, que amou apenas uma, mas ao mesmo tempo amou tantas e de diversos modos. 

A genialidade desse escritor se configura cada vez mais. Se em "Cem anos", vivi momentos de magia, aqui fui transportada para um universo de paixão, de algo que queima, que arrebata, que consome. "Os sintomas do amor são os mesmos do cólera!" Vivi dias de intenso cólera! Apaixonante cólera. Tão apaixonante ao ponto de quase me fazer erguer a bandeira amarela e ficar à deriva nesse delicioso mar, assim como os navios à época das epidemias. Mas, terminei a viagem. Com um grito na alma, cerrei mais um livro. Fantástico! Surpreendente! Encantada e "com a surpresa (nem tão) tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites!"

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